Vou lançar a teoria: a piada degrada-se com a idade

Noto que os adultos parecem rir-se com imensa facilidade. É como se, com a idade, o threshold de qualidade de piada caísse vertiginosamente e tudo se tornasse válido (mesmo as piadas sem piada).  

Senhor crescido de 45 anos faz piada sem qualquer piada. Senhora crescida de 50 anos atira cabeça para trás e gargalha de boca escancarada. Rita olha para um, olha para o outro, mantendo a sua cara normal-séria e questionando-se se será o seu carácter anormalmente difícil de agradar ou se de facto a piada não aconteceu.

Estarei sozinha nesta teoria?

Voluntario-me para receber o Nobel do Pretensiosismo

No meu ranking de nível de chiqueza dos transportes públicos, o Comboio preside a hierarquia.

Aproximo-me da saída da carruagem e mesmo antes de descer o degrau, lá do alto, miro a plebe em baixo, que aguarda ansiosamente pelo pão pela minha saída para poder entrar, e penso sim, vim de uma viagem de negócios muito importante num sítio muito evoluído.

Metro vs. Carro, uma luta de perdedores?

Sinto-me com uma vida infinitamente menos interessante desde que deixei de andar de metro. Longe vão os tempos em que diariamente descobria pessoas incríveis, como aquele senhor de grandes proporções e cabeça rapada que, sentado desconfortavelmente num assento da carruagem, lia a sua bíblia, bem protegida por uma capinha de cabedal com fecho eclair.

Por outro lado, fiquei claramente a ganhar porque me tornei em mais uma pessoa que abusa da língua mãe, vociferando palavras feias começadas por C, sempre que demoro mais de 1h para percorrer 11k. Sinto-me mais enquadrada, mais portuguesa!

Toda a verdade: os Horrendos

Apresento-vos os Horrendos. Os irmãos bastardos dos Minutos, sem jeito para os estudos, que passavam a vida a ligar aos bons alunos para tirar dúvidas em vésperas de teste. Os Horrendos representam a unidade temporal de espera do sistema circulatório de autocarros da cidade de Lisboa e são exibidos publicamente em painéis eletrónicos amarelos colocados a 2 metros do chão com ar moderno e útil.

Os Horrendos não obedecem a uma escala linear. Um horrendo pode equivaler a qualquer valor entre 1 e 5 minutos, tendo já sido identificados alguns padrões comportamentais que nos ajudam a compreender melhor a sua variação:

1) Padrão carro velho, i.e. só andam quando lhes apetece. Pode estar um sol radioso e um número mínimo de carros a circular nas principais ruas da cidade e ainda assim os Horrendos mantêm-se fixos sem qualquer razão aparente. Caso prático: visionamos um maravilhoso "3" no painel amarelo e sorrimos para ninguém com um orgulho parvo na cara, oh yeah cheguei mesmo a tempo!, enquanto nos questionamos porque raio não estão os restantes seres humanos da paragem a sorrir da mesma forma, apenas para rapidamente nos apercebermos de que o 3 não evolui há 4 minutos. Os cantos da boca descaem lentamente e a sensação porquê? porquê?! instala-se, acompanhada de um desejo intenso de consumir anti-depressivos.

2) Padrão Keynesiano. Os Horrendos são defensores acérrimos do aumento dos gastos públicos como estímulo à economia nacional e criação de emprego e para que todos partilhem desta visão, estendem os seus valores para níveis exorbitantes. Caso prático: com o arranque das obras para viver melhor Lisboa!, para que todos observem com atenção e minúcia o investimento público - os polícias sinaleiros que gesticulam perante os olhares esbugalhados dos condutores que se indagam para que servem então os semáforos, as empresas nacionais de construção civil que garantem estradas lisinhas e sem declives e os senhores que em gabinetes desenham avenidas cheias de árvores e espaço livre para peões - os Horrendos escalam para níveis gigantescos, atingindo números como 38 ou 43, que quando visionados com elevadas expectativas, têm a capacidade de fazer abrandar de forma preocupante os corações dos mais ansiosos. 

3) Padrão House, i.e. everybody lies. Os Horrendos mentem. Com frequência agem como filhos da mãe e mostram-se em trajes pequenos e quase inexistentes, evaporando-se meros momentos depois sem mais nem porquê, sem que qualquer autocarro se apresente à nossa frente. Caso prático: Depois de uma consulta rápida no smartphone dos Horrendos que faltam para chegar o nosso autocarro, seguida de uma corrida em modo é o último km da prova, 'bora acelerar que nem loucos para a malta da meta achar que fizemos o percurso inteiro a galope, chega-se à paragem e o painel amarelo exibe o nome do destino final sem apresentar qualquer horrendo à frente - é o sonho! chegámos ha hora H! está ali ao virar da esquina! vai aparecer a qualquer momento! Só que não. O nome do destino eclipsa-se do painel e o coração aperta-se em lamento antecipado dos 15m de série que não vamos poder ver no sofá.

Agora que sabem toda a verdade por detrás do pesadelo que é esperar pelo autocarro, sejam espertos, andem de metro. 

O meu maior self high-five de sempre

Há piadas que se idealizam fazer, mas cujo timing parece nunca surgir. Graças com potencial de curar leves doenças crónicas, tal a sua capacidade de gerar gargalhadas e admiração.

Ontem, tive a majestosa oportunidade de fazer uma piada destas.

O meu chefe perguntou: de que equipa é a Miranda?

Eu, sentindo de imediato o coração a pulsar na garganta, arregalei os olhos e, controlando o riso a custo extremo (eu sou sempre aquela pessoa que nunca aguenta as partidas e piadas sem se desmanchar a rir antes da punchline), disse com possivelmente um dos maiores níveis de orgulho da minha vida: é da equipa da Carrie!

E pronto, isto sou eu no mais puro estado.

Salamaleques no Porto? Jamais

Fui trabalhar ao Porto durante um dia e o highlight não foi ter andado de metro, nem ter aprendido que pastéis de bacalhau são bolinhos de bacalhau, mas sim o facto de a senhora do restaurante onde fui almoçar me ter dito aos quatro segundos de jogo, enquanto movimentava mesas e cadeiras: Olha o cu menina.

Nunca um ba dum tss fez tanta falta.

A minha vida tem tudo para ser perfeita. Só falta deixar de trabalhar.

De phones nos ouvidos, sinto a cabeça a vibrar ao ritmo tranquilo de Playgroung Love e absorvo o aroma de um triângulozinho de Toblerone que alguém me ofereceu e que eu educadamente reservei para mais tarde apreciar. Que doce a minha vida, penso de cara sorridente, enquanto olho pela janela.

Rapidamente a paz é interrompida por um ser volumoso que passa por detrás da minha cadeira, pontapeando-a graciosamente. Volto a baixar a cabeça para o ppt dantesco de tons cinzentos e letras mínimas que chama por mim - todos os dias.