Toda a verdade: os Horrendos

Apresento-vos os Horrendos. Os irmãos bastardos dos Minutos, sem jeito para os estudos, que passavam a vida a ligar aos bons alunos para tirar dúvidas em vésperas de teste. Os Horrendos representam a unidade temporal de espera do sistema circulatório de autocarros da cidade de Lisboa e são exibidos publicamente em painéis eletrónicos amarelos colocados a 2 metros do chão com ar moderno e útil.

Os Horrendos não obedecem a uma escala linear. Um horrendo pode equivaler a qualquer valor entre 1 e 5 minutos, tendo já sido identificados alguns padrões comportamentais que nos ajudam a compreender melhor a sua variação:

1) Padrão carro velho, i.e. só andam quando lhes apetece. Pode estar um sol radioso e um número mínimo de carros a circular nas principais ruas da cidade e ainda assim os Horrendos mantêm-se fixos sem qualquer razão aparente. Caso prático: visionamos um maravilhoso "3" no painel amarelo e sorrimos para ninguém com um orgulho parvo na cara, oh yeah cheguei mesmo a tempo!, enquanto nos questionamos porque raio não estão os restantes seres humanos da paragem a sorrir da mesma forma, apenas para rapidamente nos apercebermos de que o 3 não evolui há 4 minutos. Os cantos da boca descaem lentamente e a sensação porquê? porquê?! instala-se, acompanhada de um desejo intenso de consumir anti-depressivos.

2) Padrão Keynesiano. Os Horrendos são defensores acérrimos do aumento dos gastos públicos como estímulo à economia nacional e criação de emprego e para que todos partilhem desta visão, estendem os seus valores para níveis exorbitantes. Caso prático: com o arranque das obras para viver melhor Lisboa!, para que todos observem com atenção e minúcia o investimento público - os polícias sinaleiros que gesticulam perante os olhares esbugalhados dos condutores que se indagam para que servem então os semáforos, as empresas nacionais de construção civil que garantem estradas lisinhas e sem declives e os senhores que em gabinetes desenham avenidas cheias de árvores e espaço livre para peões - os Horrendos escalam para níveis gigantescos, atingindo números como 38 ou 43, que quando visionados com elevadas expectativas, têm a capacidade de fazer abrandar de forma preocupante os corações dos mais ansiosos. 

3) Padrão House, i.e. everybody lies. Os Horrendos mentem. Com frequência agem como filhos da mãe e mostram-se em trajes pequenos e quase inexistentes, evaporando-se meros momentos depois sem mais nem porquê, sem que qualquer autocarro se apresente à nossa frente. Caso prático: Depois de uma consulta rápida no smartphone dos Horrendos que faltam para chegar o nosso autocarro, seguida de uma corrida em modo é o último km da prova, 'bora acelerar que nem loucos para a malta da meta achar que fizemos o percurso inteiro a galope, chega-se à paragem e o painel amarelo exibe o nome do destino final sem apresentar qualquer horrendo à frente - é o sonho! chegámos ha hora H! está ali ao virar da esquina! vai aparecer a qualquer momento! Só que não. O nome do destino eclipsa-se do painel e o coração aperta-se em lamento antecipado dos 15m de série que não vamos poder ver no sofá.

Agora que sabem toda a verdade por detrás do pesadelo que é esperar pelo autocarro, sejam espertos, andem de metro.