Marry me, Spoti

As vezes acho que o Spotify é que vai ser a minha cara metade.

Quando estamos no carro e descubro que ele fez uma playlist SÓ PARA MIM e põe a tocar coisas QUE SÓ ELE SABE que adoro, perco a cabeça. 

Hoje, quando ele de forma absolutamente proativa começou a tocar Such great heights, não aguentei, fiz olhos de bambi para o ecrãzinho do carro disse-lhe de coração cheio ‘i love you, spotify’.

Algo me diz que isto vai ser uma relação unilateral.

Easyjet

Lugar na última fila junto ao wc e ao corredor. Ouço todos os flushes. Cheiro todos os aromas.

Mala forçada a viajar no porão. Solitária e sem cadeado. 

Rodeada de jovens inglesas ainda de tiaras de plástico reluzente na cabeça a anunciar o seu status de noivas felizes de cabelo oxiloiro.  

More like Hardjet.

Descendo escadas

Há pouco caí nas escadas do prédio. De alguma forma, os meus pés desligaram-se, deixando-se ficar para trás, os meus joelhos iniciaram uma aproximação lenta do chão, aterrando sem pressa, enquanto o resto do meu corpo os seguia congelado numa espécie de posição fetal inerte.

Pergunto me como será a vida aos 60. Acho que vou ter andar envolta em bubble wrap.

Sonhos de crescida

O meu subconsciente aceitou a década dos 30 finalmente. Hoje, sonhei que estava com a minha best pal do trabalho a comer. Para sobremesa escolhíamos fruta e eu pedia canela para colocar por cima, porque acelera o metabolismo.

 

Aposto que para a semana sonho que estou a ler o jornal. Ou a passar a ferro. Ou a polir casquinhas.

 

Serenity now.  

Run for cover

Vejo-o ao espelho. Está lá, não há qualquer dúvida. Cabrãozinho a brilhar sob a luz, enquanto passo os dedos repetidamente tentando apanhá-lo, sem sucesso. De repente, deixa de estar lá. Viro e reviro todos os fios de cabelo, mas todos são escuros e finos, como habitualmente. Desapareceu e agora tenho de esperar por uma nova incursão ao espelho, de sobrolho levantado, óculos a escorregar pelo nariz, testa inclinada para a frente e mãos embrenhadas em busca do único (fingers crossed) B na sopa de letras que é a minha cabeça.

O que é isto de envelhecer? Não estou preparada para a materialidade deste conceito. Continuo a não saber o que fazer com a couve que jaz há demasiado tempo no meu frigorífico porque não sei o que se faz normalmente às couves. Estará a minha possibilidade de fazer birras e amuar porque sim automaticamente revogada? Passarei de imediato a ser tratada como "senhora" por todos os simpáticos do setor dos serviços? Onde está o memo a explicar todos os detalhes? Preciso de regras para subsistir, exijo uma explicação!

 

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Vou lançar a teoria: a piada degrada-se com a idade

Noto que os adultos parecem rir-se com imensa facilidade. É como se, com a idade, o threshold de qualidade de piada caísse vertiginosamente e tudo se tornasse válido (mesmo as piadas sem piada).  

Senhor crescido de 45 anos faz piada sem qualquer piada. Senhora crescida de 50 anos atira cabeça para trás e gargalha de boca escancarada. Rita olha para um, olha para o outro, mantendo a sua cara normal-séria e questionando-se se será o seu carácter anormalmente difícil de agradar ou se de facto a piada não aconteceu.

Estarei sozinha nesta teoria?

Voluntario-me para receber o Nobel do Pretensiosismo

No meu ranking de nível de chiqueza dos transportes públicos, o Comboio preside a hierarquia.

Aproximo-me da saída da carruagem e mesmo antes de descer o degrau, lá do alto, miro a plebe em baixo, que aguarda ansiosamente pelo pão pela minha saída para poder entrar, e penso sim, vim de uma viagem de negócios muito importante num sítio muito evoluído.

Metro vs. Carro, uma luta de perdedores?

Sinto-me com uma vida infinitamente menos interessante desde que deixei de andar de metro. Longe vão os tempos em que diariamente descobria pessoas incríveis, como aquele senhor de grandes proporções e cabeça rapada que, sentado desconfortavelmente num assento da carruagem, lia a sua bíblia, bem protegida por uma capinha de cabedal com fecho eclair.

Por outro lado, fiquei claramente a ganhar porque me tornei em mais uma pessoa que abusa da língua mãe, vociferando palavras feias começadas por C, sempre que demoro mais de 1h para percorrer 11k. Sinto-me mais enquadrada, mais portuguesa!